Cuba prepara médicos para os Estados Unidos

29-02-2016 21:42

BBC/Fernando Ravsberg, de Havana

Apesar do embargo econômico dos Estados Unidos à Cuba, um programa de intercâmbio está levando estudantes americanos às universidades cubanas.

Os primeiros nove estudantes chegaram, nesta quinta-feira, à Escola Latino-americana de Medicina de Cuba, onde vão estudar durante seis anos.

São jovens de origem hispânica e afro-americana, que vão estudar gratuitamente, beneficiados por um projeto da organização religiosa americana, Pastores da Paz.

O estudante José Lozano, de Chicago, neto de mexicanos, disse à BBC que seu objetivo ao se formar é voltar aos Estados Unidos para trabalhar em comunidades pobres, sobretudo com minorias.

Problemas

Antes disso, as autoridades americanas terão que reconhecer os diplomas de medicina obtidos em Cuba, o que hoje não é possível.

O pastor Lucius Walker, presidente dos Pastores da Paz, afirmou que está organizando uma comissão para tentar convencer Washington que as comunidades mais pobres precisam desses médicos.

A Escola Latino-americana de Medicina possui 2.500 alunos, vindos de 24 países da América Latina e do Caribe. 

A maioria dos estudantes vem de áreas rurais e de comunidades mais pobres, incluindo membros de 67 etnias indígenas da região.

Todos são patrocinados pelo governo cubano, que oferece o curso gratuitamente, incluindo alojamento, comida e material didático.

O único compromisso que se exige dos estudantes é de caráter moral. Quando voltarem aos seus países eles devem trabalhar em suas comunidades.

"Esta é uma oportunidade única que temos para estudar. O povo cubano nos fornece tudo que precisamos. Em meu país eu não teria condições de seguir esta carreira", disse a argentina Wara Prieto.

Diploma

O projeto não conta com a simpatia de alguns governos, como é o caso da Argentina que já anunciou que não vai reconhecer os diplomas.

Mas, segundo a estudante Wara Prieto, há uma pressão para que as autoridades mudem de opinião. Segundo ela, as autoridades já contam com o apoio de muitos parlamentares argentinos.

Várias universidades de medicina da América Latina também já protestaram contra o grande número de médicos que serão graduados em Cuba nos próximos anos.

Para os estudantes americanos a situação é ainda mais grave. Segundo as leis dos Estados Unidos, é proibido visitar Cuba. A pena pode ser de dez anos de prisão, mais uma multa de U$ 250 mil.

Por outro lado, a sociedade médica dos Estados Unidos, uma das mais poderosas do mundo, vem se negando a aceitar o reconhecimento de diplomas de médicos cubanos exilados no país.

Mesmo assim, com 40 milhões de pessoas sem assistência médica - a maioria pertencente às minorias- não será fácil para Washington se negar a aceitar os jovens médicos.

Um diplomata ocidental, que pediu para não ser identificado, disse que esta é uma das hábeis manobras políticas de Fidel Castro.

E, se assim o for, se trata de uma iniciativa com tantos beneficiados que bem poderia ser aplaudida por seus inimigos políticos.