Livro de Angela Davis, "Mulheres, Raça e Classe" ganha tradução em português

25-08-2016 04:41

Boitempo Editorial publica pela primeira vez no Brasil o livro “Mulheres, raça e classe”, escrito pela famosa ativista feminista negra e abolicionista Angela Davis. O livro faz parte de mais uma tradução feminista da editora. Recentemente, a Boitempo lançou o clássico “Reivindicação dos Direitos da Mulher”.

Marina Colerato, Modefica

Publicado originalmente em 1981 nos Estados Unidos, “Mulheres, raça e classe” analisa as tensões durante o movimento sufragista americano, aborda os interesses divergentes das mulheres brancas e negras, e conta aos detalhes sobre os movimentos sociais da época e como muitas mulheres estavam envolvidas neles.

Todo o trabalho de Davis preza pela interseccionalidade dos movimentos sociais, ou seja, entender as diferentes opressões sem hierarquizá-las. “Meu objetivo sempre foi encontrar pontos entre as ideias e derrubar os muros. E os muros derrubados se transformam em pontes” é uma de suas citações mais célebres. Não à toa, o livro é considerado um clássico sobre a interseccionalidade de gênero, raça e classe.

Esse trabalho da ativista conta com análises sobre escravidão, encarceramento em massa da população negra, estupro, aborto, direitos reprodutivos e trabalho doméstico, tendo sempre a mulher negra no centro das discussões. O livro é fundamental para as feministas brasileiras, indispensável para a compreensão do nosso país e para o entendimento sobre a urgência do debate racial para a construção de uma nova sociedade.

“Davis apresenta o debate sobre o abolicionismo penal como imprescindível para o enfrentamento do racismo institucional. Denuncia o encarceramento em massa da população negra como mecanismo de controle e dominação. Dessa forma, questiona a ideia de que a mera adesão a uma lógica punitivista traria soluções efetivas para o combate à violência, considerando-se que o sujeito negro foi aquele construído como violento e perigoso, inclusive a mulher negra, cada vez mais encarcerada.

Analisar essa problemática tendo como base a questão de raça e classe permite a Davis fazer uma análise profunda e refinada do modo pelo qual essas opressões estruturam a sociedade. Neste livro, tal discussão é sinalizada pela autora por meio de sua abordagem do sistema de contratação de pessoas encarceradas nos Estados Unidos, que já durante o período escravocrata permitia às autoridades ceder homens e mulheres negros presos para o trabalho, em uma relação direta entre escravidão e encarceramento como forma de controle social”, aponta o prefácio de Djamila Ribeiro.

Angela Davis e Direito dos Animais

Apesar de não ser um assunto tão pautado em seus discursos, Angela Davis também acredita que as questões dos animais não-humanos precisam entrar no debate se quisermos um mundo mais igualitário. Durante a 27ª Conferência Anual Sobre Empoderamento Da Mulher Não-Branca (Annual Empowering Women of Color Conference), nos Estados Unidos, Davis falou sobre promover justiça social para animais humanos e não-humanos.

Ao ser questionada pela Dra Breeze Harper, ativista feminista negra vegana, idealizadora do Sistah Vegan, a filosofa afirmou que “o fato de sentarmos para comer um frango sem pensarmos na condição horrorosa na qual frangos são industrialmente criados nesse país é um sinal do perigo do capitalismo. [Um sinal de] como o capitalismo colonizou nossas mentes”.

“Eu acredito que há uma conexão entre a maneira como tratamos os animais e as pessoas que estão na base da hierarquia. Olhe para como as pessoas cometem tanta violência para com outras pessoas, e como elas normalmente aprenderam a fazer isso torturando animais. Há muitas perspectivas pelas quais podemos falar sobre isso”, explica Davis.

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Uma Pequena Biografia de Angela Davis

Davis ficou bastante famosa na década de 70 por integrar o partido Panteras Negras. Nascida em 1944, no Alabama, numa família de classe média americana com ideais comunistas, cresceu na época do Ku Kux Klan, linchamentos, segregação racial e Mississipi em chamas. Aos 12 anos, participou do seu primeiro boicote (a um ônibus que praticava segregação) e aos 14, graças a uma bolsa, foi para Nova York estudar em um liceu de esquerda chamado Little Red School House.

Anos mais tarde, ingressou no Partido Pantera Negra e foi presa em 1970, passando 16 meses reclusa. Recebeu apoio mundial com o movimento “free Angela Davis”, ganhou status de celebridade e escreveu diversos livros. Em 2012, estreou o documentário“Free Angela and All Political Prisoners” responsável por narrar a vida de Angela e seu ativismo social. Hoje, com 72 anos, é professora de filosofia na Universidade de Santa Cruz, que fica entre São Francisco e Monterey, na Califórnia.

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Boitempo Editorial publica pela primeira vez no Brasil o livro “Mulheres, raça e classe”, escrito pela famosa ativista feminista negra e abolicionista Angela Davis. O livro faz parte de mais uma tradução feminista da editora. Recentemente, a Boitempo lançou o clássico “Reivindicação dos Direitos da Mulher”.

Publicado originalmente em 1981 nos Estados Unidos, “Mulheres, raça e classe” analisa as tensões durante o movimento sufragista americano, aborda os interesses divergentes das mulheres brancas e negras, e conta aos detalhes sobre os movimentos sociais da época e como muitas mulheres estavam envolvidas neles.

Todo o trabalho de Davis preza pela interseccionalidade dos movimentos sociais, ou seja, entender as diferentes opressões sem hierarquizá-las. “Meu objetivo sempre foi encontrar pontos entre as ideias e derrubar os muros. E os muros derrubados se transformam em pontes” é uma de suas citações mais célebres. Não à toa, o livro é considerado um clássico sobre a interseccionalidade de gênero, raça e classe.

Esse trabalho da ativista conta com análises sobre escravidão, encarceramento em massa da população negra, estupro, aborto, direitos reprodutivos e trabalho doméstico, tendo sempre a mulher negra no centro das discussões. O livro é fundamental para as feministas brasileiras, indispensável para a compreensão do nosso país e para o entendimento sobre a urgência do debate racial para a construção de uma nova sociedade.

... E OS MUROS DERRUBADOS SE TORNAM PONTES.

“Davis apresenta o debate sobre o abolicionismo penal como imprescindível para o enfrentamento do racismo institucional. Denuncia o encarceramento em massa da população negra como mecanismo de controle e dominação. Dessa forma, questiona a ideia de que a mera adesão a uma lógica punitivista traria soluções efetivas para o combate à violência, considerando-se que o sujeito negro foi aquele construído como violento e perigoso, inclusive a mulher negra, cada vez mais encarcerada.

Analisar essa problemática tendo como base a questão de raça e classe permite a Davis fazer uma análise profunda e refinada do modo pelo qual essas opressões estruturam a sociedade. Neste livro, tal discussão é sinalizada pela autora por meio de sua abordagem do sistema de contratação de pessoas encarceradas nos Estados Unidos, que já durante o período escravocrata permitia às autoridades ceder homens e mulheres negros presos para o trabalho, em uma relação direta entre escravidão e encarceramento como forma de controle social”, aponta o prefácio de Djamila Ribeiro.