Pesquisa investigou a prevalência de hipertensão arterial em comunidades quilombolas do Rio Grande do Sul

06-02-2017 14:46

Estudo também mostra os fatores associados para o desenvolvimento da doença

Fonte: ufrgs

A hipertensão, frequentemente chamada de pressão alta, consiste na pressão arterial igual ou maior que 140/90 mmHg (14 por 9). Quando o coração bate, ele contrai e bombeia sangue pelas artérias para o resto do corpo, exercendo uma força sobre as paredes dos vasos sanguíneos. Essa força cria uma pressão sobre as artérias, que se chama pressão arterial sistólica. Também existe a pressão arterial diastólica, que indica a pressão nas artérias quando o coração está em repouso entre uma batida e outra. Segundo o Ministério da Saúde, nos últimos 20 anos, a prevalência de hipertensão está acima de 30% na população brasileira com mais de 50 anos. Entre 60 a 69 anos, é de 50%, e acima de 70 anos, é de 75%. Além disso, o problema é mais comum nos homens (38%) do que nas mulheres (32%). A Pesquisa Nacional de Saúde, realizada em 2013, indicou que a proporção de pessoas com 18 anos ou mais diagnosticadas com hipertensão foi de 21,4%, correspondendo a 31,3 milhões de pessoas.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Hipertensão (SBH), a pressão se eleva por diversos motivos, mas principalmente porque os vasos nos quais o sangue circula se contraem. Entre os fatores que colaboram para o desenvolvimento da hipertensão estão excesso de peso e obesidade, consumo de sal, ingestão de álcool e sedentarismo. A SBH alerta que a pressão alta afeta os vasos, coração, rins e cérebro. Com o passar dos anos, a pressão alta pode fazer com que vasos entupam ou rompam. Quando o entupimento de um vaso acontece no coração, pode resultar em um infarto, já no cérebro, pode causar um acidente vascular cerebral (AVC). Nos rins, podem ocorrer alterações na filtração e até a paralisação dos órgãos. A hipertensão é responsável por 40% dos infartos, 80% dos derrames e 25% dos casos de insuficiência renal terminal.

Todas essas situações são muito graves e podem ser evitadas com o tratamento adequado. Entretanto, apesar de a saúde ser um direito constitucional, nem todas as pessoas têm acesso a um acompanhamento apropriado. Na maioria das vezes, isso se dá em virtude do racismo, de fatores socioeconômicos e da exclusão social, demonstrando a falta de garantia da promoção da igualdade racial, além dos débeis desenvolvimento e fortalecimento da democracia, que ainda podem influenciar a frequência e a causalidade de doenças como a hipertensão. Nesse contexto, a nutricionista especialista em Saúde da Família e Comunidade Sílvia Pauli desenvolveu sua dissertação de mestrado direcionando sua atenção para uma população que representa essa situação de vulnerabilidade: as comunidades quilombolas. “Essa pesquisa é importante primeiro porque traz visibilidade para essas comunidades e segundo porque tentamos trazer uma proposta de solução para esses problemas”, afirma Sílvia. A pesquisadora afirma em seu estudo que existem evidências de que a hipertensão seja mais prevalente em pessoas negras, mas que os mecanismos que contribuem para essa diferença não são totalmente compreendidos. No Brasil, os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2003 mostraram que pessoas autodeclaradas negras apresentaram maior prevalência de hipertensão (32,3%) quando comparadas àquelas que se autodeclaram brancas (28,8%). O Ministério da Saúde afirma que a frequência, a distribuição e a causalidade das doenças mais incidentes na população brasileira afrodescendente são influenciadas fortemente por fatores socioeconômicos, que incluem o regime de escravatura vivido até o final do século XIX e a posterior situação de exclusão social dessa população.

De acordo com informações da Fundação Palmares e da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, atualmente estima-se que existam mais de três mil comunidades quilombolas distribuídas nas cinco regiões do país, mas apenas 2.394 são reconhecidas oficialmente pelo Estado. Dessas, 107 estão localizadas no estado do Rio Grande do Sul, totalizando aproximadamente 3.130 famílias.

A situação das comunidades

As comunidades quilombolas são núcleos populacionais de afrodescendentes que, diante da condição de escravidão vivida no passado, organizaram-se e reuniram-se em formas particulares de organização social, ocupando geralmente áreas rurais com certo isolamento. São grupos marcados por processos de discriminação e exclusão que reproduzem em sua realidade um quadro socioeconômico excludente se comparados à população brasileira em geral. Os quilombolas geralmente são mais pobres e menos instruídos do que o restante da população. Em virtude disso, acabam sendo mais vulneráveis à violência e a doenças, além de o seu acesso aos serviços de saúde ser mais difícil. “Normalmente não tem unidade de saúde nas comunidades; eles precisam se deslocar por longas distâncias para conseguir atendimento”, afirma Sílvia. A pesquisadora ainda destaca que há programas a que as comunidades quilombolas têm acesso prioritário, mas muitos não têm conhecimento disso. “Quando eles vão buscar informações nas prefeituras, não são bem atendidos ou o pessoal é mal informado, então eles acabam não conseguindo acessar esses programas”, conta.

Sílvia também mostra em seu estudo que a hipertensão é a doença crônica mais frequente na população quilombola.

O estudo

Sílvia conta que sempre gostou de saúde coletiva. Quando selecionada para cursar o mestrado no Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da UFRGS, já pensava em desenvolver seu estudo sobre doenças crônicas. “No mestrado, conheci minha orientadora, e ela me apresentou uma linha de pesquisa de segurança alimentar e nutrição quilombola pela qual me interessei”, lembra a pesquisadora.

Em 2011, antes de Sílvia ingressar no mestrado, a equipe da pesquisa (Marilda Neutzling, coordenadora do projeto e orientadora de Sílvia, e Fernanda Bairros, autora do projeto) já havia iniciado a coleta de dados. “Não participei dessa primeira etapa, mas resolvi abraçar a causa, pois foi um assunto que me despertou interesse”, conta. Segundo a pesquisadora, a partir desses dados, foi constada a alta prevalência de insegurança alimentar, além de excesso de peso e hipertensão. A equipe já estava planejando um segundo projeto de intervenção de educação nutricional nas comunidades com maiores índices, em parceria com as prefeituras, para tentar ampliar o acesso das comunidades a uma alimentação saudável e à água potável.

Entre os diversos fatores que colaboram para o desenvolvimento da hipertensão, Sílvia destacou em sua pesquisa cinco deles que são os mais presentes nas comunidades quilombolas:

  • a idade, pois quanto mais velha a pessoa, maiores são as chances de desenvolver a doença;
  • a presença de diabetes, responsável por 3,5% das mortes por doenças crônicas não transmissíveis no mundo;
  • a escolaridade baixa, pois, de acordo com Sílvia, se todos os membros das comunidades possuíssem pelo menos oito anos de estudo, a prevalência de hipertensão seria reduzida em 22,5% (atualmente 80% não possui ensino fundamental completo);
  • a circunferência abdominal, que pode elevar em até cinco vezes o risco de hipertensão;
  • e o consumo de álcool, pois se estima que o aumento da pressão arterial é de aproximadamente 1 mmHg para cada 10g de álcool consumido, sendo em grande parte reversível dentro de duas a quatro semanas de abstinência ou redução substancial do consumo de álcool.

 

Resultados

Foram entrevistados 589 adultos. Desses, a maioria eram mulheres (64,9%). 81,7% residiam no perímetro rural, e 90,7% eram negros (incluindo-se os considerados pardos). Quanto à situação socioeconômica, 63,3% recebiam até meio salário mínimo, e 80% tinham menos de oito anos de estudo. A média de idade foi de 45 anos. Referente ao diagnóstico de hipertensão, o estudo constatou uma alta prevalência na população quilombola do Rio Grande do Sul: 38,3% dos entrevistados foram confirmados com a doença. Desses, a maioria eram mulheres, indivíduos mais velhos, com menor nível de escolaridade e com presença de diabetes.

Sílvia conta que o retorno dos resultados para as comunidades foi muito importante. “Eles criaram um comitê gestor das comunidades quilombolas, formado por quilombolas e pessoas das prefeituras, para começar a lutar pelas demandas deles”, afirma. A fim de reduzir a prevalência e as implicações da hipertensão na saúde, a pesquisadora recomenda a efetivação de políticas públicas que ampliem o acesso das comunidades quilombolas aos seus direitos fundamentais, como saúde, renda, escolaridade, etc. Sílvia também destaca a importância do desenvolvimento de ações de promoção de uma alimentação adequada, através de estratégias de educação alimentar e nutricional específicas para populações quilombolas.

Atualmente, existe um grupo de pesquisa em que estão sendo desenvolvidos mais artigos com os dados coletados em 2011. Sílvia afirma que também está sendo realizado um estudo sobre o consumo de álcool na população quilombola. Para o doutorado, iniciado em 2016, Sílvia segue nessa linha de pesquisa, mas focada na parte de consumo e cultura alimentar, fatores determinantes para o desenvolvimento de doenças crônicas.

Dissertação

Título: Prevalência de hipertensão arterial e fatores associados em comunidades quilombolas do Rio Grande do Sul, Brasil
Autora: Sílvia Pauli
Orientador: Marilda Borges Neutzling
Unidade: Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia