Reflexões sobre Angola, hoje

05-11-2012 16:50

Dermeval Corrêa de Andrade*

É emocionante para um afro-descen­dente, como eu, lançar vistas para a Baia de Luanda e imaginar quantos de meus pa­rentes partiram de lá, seqüestrados impie­dosamente para enriquecer o ho­mem branco, há 400 anos. Para jus­tificar seus atos, os mercenários se apegavam à igreja católica, à tecnolo­gia (as armas mais avançadas da época) e à cobiça. Com relação a Angola, a colonização portu­guesa, durou até o final do século pas­sado.

Depois da expulsão do coloniza­dor, em 1975, por razões de interesses internos e exter­nos, Angola viu-se diante de uma guerra civil que duraria quase 30 anos. O Movimen­to Pela Libertação de Angola (MPLA – liderado pelo mé­dico e libertador angolano, Agostinho Neto.) enfrentou a poderosa guerrilha da Unita, financiada pelo ex-regime da África do Sul (o apar­theid) e Estados Unidos, deixando rastros de sangue e vítimas impressionantes (um milhão de mortos).

Era de se esperar que os diferentes gru­pos sociais e o próprio governo tivessem dificuldades para dar início ao que chama­mos democracia. Por isso as eleições de setembro passado, que re-elegeu Eduardo Santos como presidente, é um fato impor­tante rumo à paz.

Mas vejam os leitores, algo novo está acon­tecendo em Angola e que merece estudos mais aprofundados. O Governo se abraçou aos investidores chineses, aos explorado­res norte-americanos e às construtoras bra­sileiras. Mas não se enganem com todo ca­pital investido pelos novos “amigos”. Estes sabem muito bem como são im­portantes o petróleo e os diamantes, a preços de banana! Não se enganem com os carros luxuosos importados que congestionam as ruas da capital Luanda. Na v e r d a d e , e s t a b e l e ­ceu-se um enorme fos­so entre os pobres e as classes do­m i n a n t e s angolanas, sob um marketing político habili­doso que atenua as injustiças so­ciais; marketing este com inspiração brasileira. Aliás, o Brasil criou uma verdadeira escola de formação e exportação de marqueteiros e pas­tores evangélicos. Desgraçadamen­te, estes dois segmentos representarão o Brasil em terras africanas como um novo e alienante colonizador cultural.

Porém... Como dizem alguns amigos an­golanos, o jogo apenas começou!!!

PS: acabo de chegar de uma viagem cientí­fico-humanitária àquele País irmão.

 

*Dermeval Corrêa de Andradepsicólogo, formulador da Psicologia da Ideologia e da Educação Social Transformadora e consultor de estratégias humanitárias, é hoje um dos científicos em ação no cenário internacional que interferem de maneira inconfundível na ciência e na cultura, buscando colocá-las a serviço da construção da autêntica cidadania para todos.